O desenho no celular ou na televisão pode até ajudar a manter a criança sentada à mesa, mas a distração durante as refeições pode dificultar a percepção de fome e saciedade e reduzir a interação com a família, segundo especialistas.

O uso de celulares, tablets e televisão durante as refeições tornou-se comum em muitas famílias. Para alguns pais, a estratégia facilita a aceitação dos alimentos ou torna mais tranquila uma tarefa que costuma ser difícil. O problema é quando a tela deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina alimentar.

“A alimentação vai muito além da ingestão de alimentos. Quando a criança está totalmente concentrada na tela, deixa de prestar atenção aos sinais naturais de fome e saciedade, reduz a interação com a família e participa menos da experiência alimentar. Comer também é aprender, explorar, observar e desenvolver autonomia”, afirma a nutricionista infantil e especialista em terapia alimentar Anne Letícia Dias, da Hapvida.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 na revista científica JAMA Pediatrics apontou que a exposição frequente às telas em momentos importantes da rotina, como as refeições, pode prejudicar a interação entre pais e filhos e reduzir oportunidades de aprendizagem, além de favorecer comportamentos alimentares menos saudáveis.

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, recomenda que as refeições sejam feitas em ambientes tranquilos e sem televisão, celulares ou outras distrações. A Sociedade Brasileira de Pediatria também orienta que dispositivos eletrônicos não façam parte da rotina alimentar infantil. A revista Appetite associou o uso de telas durante as refeições a maior consumo de alimentos ultraprocessados, menor ingestão de frutas e vegetais e pior qualidade geral da alimentação. A distração também pode dificultar que a criança reconheça quando está satisfeita.

Apesar das recomendações, Anne Letícia afirma que o uso eventual das telas não deve ser motivo de culpa para os pais. “A rotina das famílias mudou muito e sabemos que o momento da refeição para crianças pode ser difícil. O importante é que o celular não se torne uma estratégia permanente para alimentar a criança. Pequenas mudanças, como desligar a televisão durante uma refeição por dia ou incentivar conversas à mesa, já representam um passo importante”, ressalta.

A alimentação responsiva, recomendada por órgãos de saúde, parte justamente da capacidade de pais e filhos reconhecerem sinais de fome, saciedade e interesse pelos alimentos. Os primeiros anos de vida são importantes para a construção dessa relação. Nessa fase, a criança aprende também pelos sentidos: observa cores, percebe aromas, explora texturas, temperaturas e sabores. Essas experiências ajudam a ampliar a aceitação alimentar e podem contribuir para prevenir a seletividade.

“Cada refeição é uma oportunidade para a criança construir uma relação positiva com os alimentos. Quanto mais presente ela estiver nesse momento, maiores são as oportunidades de aprendizado e desenvolvimento”, afirma a nutricionista. A orientação, portanto, não é apenas retirar o celular da mesa, mas recuperar a refeição como um momento de convivência. Compartilhar ao menos uma refeição por dia, conversar sobre os alimentos, respeitar os sinais de fome e saciedade e permitir que a criança participe de tarefas simples, como escolher ou servir os alimentos, são algumas das estratégias recomendadas.

No lugar de uma tela para prender a atenção da criança, a proposta é fazer da própria refeição uma experiência que desperte sua atenção.

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